“Os homens vivem como idiotas, como maquinas, todo o tempo,
tanto nas horas de trabalho como nas horas de folga. Como idiotas e como
maquinas, mas imaginando que vivem como seres humanos civilizados, mesmo como
deuses. O primeiro passo a dar é fazê-los reconhecer que eles são idiotas e
maquinas durante as horas de trabalho. ‘Sendo a nossa civilização o que é’, eis
o que será preciso dizer-lhes ‘vocês devem passar oito das 24 horas como uma
espécie de intermediário entre um imbecil e uma maquina de coser. É muito
desagradável, eu sei. É humilhante, é repugnante. Mas aí está... Vocês tem de
fazer isso; de outra maneira. Toda a estrutura do mundo se fará em pedaços e
nós morreremos de fome. Eis por que é preciso que vocês façam esse trabalho
bestamente e mecanicamente; e que passem as horas de lazer como homens ou como
mulheres verdadeiros e completos. Não misturem as duas vidas; mantenham os
compartimentos bem estanques entre elas. O que importa acima de tudo é a vida
autenticamente humana das horas de folga. O resto não passa de uma necessidade
sórdida que é preciso satisfazer. E não esqueçam nunca que é efetivamente
sórdida e – a não ser por permitir que vocês se alimentem e conservem intacta a
sociedade – absolutamente sem importância, sem a menor relação com a verdadeira
vida humana. Não se deixem enganar pelos patifes cheios de unção que falam da
santidade do trabalho e do serviço cristão que os homens de negocio prestam aos
seus semelhantes. Tudo isso são mentiras. O trabalho de vocês não passa duma
tarefa repugnante e desagradável, mas que infelizmente é necessária por causa
da loucura de nossos antepassados. Eles acumularam uma montanha de lixo, e é
preciso que vocês fiquem a trabalhar dia e noite com suas pás procurando remover
o monturo, de medo que o fedor dele os envenene e mate; é preciso que vocês
trabalhem para respirar, maldizendo a memória daqueles insensatos que lhes
deixaram todo esse trabalho ignóbil por fazer. Mas não procurem entregar-se-lhe
de coração, fingindo que esse sujo trabalho mecânico é uma necessidade nobre.
Não é verdade; e o único resultados que vocês obterão dizendo isso e crendo
nisso será a abaixar a nossa humanidade ao nível dessa necessidade infecta. Se
vocês acreditam nos negócios, como no serviço e na santidade do trabalho, vocês
se transformarão simplesmente em idiotas mecanizados durante 24 horas, das 24
que tem um dia. Reconheçam que é um trabalho infecto, tapem o nariz,
dediquem-se a ele durante oito horas e depois concentrem-se em si mesmos para
ser, nas horas de folga, entes humanos verdadeiros. Seres humanos verdadeiros e
completos. Não leitores de jornais, nem amadores de jazz, nem maníacos da
radiofonia. Os industriais que fornecem às massas divertimentos padronizados e
fabricados em série fazem o possível para torná-los, nas horas de lazer, os
mesmos imbecis mecânicos que vocês são durante as horas de trabalho. Mas não
permitam isso. É preciso fazerem um esforço necessários para serem humanos.’
Aqui está o que se deve dizer às gentes; eis a lição que devemos ensinar aos
moços. É necessário convencer toda a gente de que toda essa magnífica
civilização industrial não passa dum mau cheiro, e de que a vida verdadeira, a
que significa alguma coisa, não pode ser vivida senão fora dela. Será preciso
muito, muito tempo para que uma vida decente e o cheiro industrial se possam
conciliar. Talvez sejam mesmo inconciliáveis. É o que ainda está para se ver...
Seja como for, por hora é necessário atacar as imundícias de rijo, suportar o
cheiro estoicamente, e, nos intervalos, tratar de levar uma vida
verdadeiramente humana.”
Aldous Huxley – Contraponto (1928)
Em 'Contraponto', Huxley, ao mesmo tempo em que faz uma
sátira sobre a desumanização do século XX, busca subverter a forma tradicional
do romance, escrevendo com base na analogia do contraponto musical.
'Contraponto' combina diversas histórias simultaneamente, apresentando o
relacionamento de vários casais que se amam, mas não se comunicam, solitários
em suas vidas movimentadas e febris. Como afirma Sérgio Augusto de Andrade, o autor
do prefácio, 'Comparáveis a trechos de certas sinfonias, as situações se
repetem e se desdobram em diagramas quase simétricos... Isolados de seu tempo,
as personagens descobrem-se isolados uns dos outros - e terminam, naturalmente,
isolados de si mesmos'.